sábado, 5 de fevereiro de 2011

Vitor Belfort VS Anderson Silva



Por quem torcer?

Tem muita gente que fica confusa e até desapontada comigo, quando sabe que eu gosto de MMA (Mixed Martial Arts), que nada mais é do que o nosso antigo ‘Vale-Tudo’, devidamente industrializado, comercializado e elevado à categoria de esporte emergente, nos EUA. Fazer o que? Não sou chegado ao futebol, nunca fui. E violência por violência, prefiro aquela sincera, sem disfarces, mas elegante e bela, sob controle e dentro de um código de honra, como é a praticada marcialmente nos eventos de Vale-Tudo, do que a desenvolvida “crocodilianamente” nos campos de futebol, fora do contexto, e com prolongamentos para os arredores dos estádios. É razoavelmente rara a pancadaria de torcidas dos eventos de Vale-Tudo... Neles, a briga não é briga, é luta, e ocorre dentro dos ringues e octógonos. E pronto. Ficamos melhor assim.
Muitos daqueles que sentiam aflição, quando me viam torcendo pela TV, em torno de lutas clássicas — como as do quase mitológico Rickson Gracie, no Japão, de Wanderley “Cachorro Louco” Silva, Alexandre Pequeno e Jacaré, também na terra do sol nascente, ou de Minotauro, Minotouro, Carlão Barreto e Vitor Belfort, na Inglaterra, Japão e EUA, e, mais recentemente, Lyoto Machida, Thales Leites, Tiago Silva, Tiago Alves, Shogum e Anderson Silva, na terra do Tio Sam (todos brazucas) — passaram a admirar os lutadores e sua arte, com apenas uma ou duas olhadinhas nos combates, a meu convite. Lembro-me de uma namorada que, aflitíssima, perguntou-me como eu tinha coragem de assistir aquilo, logo eu, que era um cara sensível, do bem, artista, escritor, etc. Era uma luta de Royler Gracie, contra um estadunidense cujo nome não me lembro agora. Convidei-a a ver alguns momentos do combate, para entender melhor o porquê do meu interesse. Ela sentou-se ao meu lado, aflita, e a meio de caminho, ainda se afligia, mas aí já torcendo pelo mais técnico e mais elegante da família Gracie. E quando ele finalizou o oponente com um arm lock, ela simplesmente fez um oooh!!!! , enquanto arregalava os olhos, completando depois com um bonito isso aí, cara...


Já minha irmã, Verinha, a princípio também perplexa com meu interesse nos combates livres, aceitou meu convite para assistir a uma luta... a partir da qual viu uma segunda, uma terceira, e terminou assinando um canal de TV especializado em esportes marciais. Hoje, ela está mais por dentro do que eu, e conhece a maior parte do jargão de lutas, qual lutador é mais ou menos técnico, acompanhando fielmente o melhor dos campeonatos, sem descuidar de ver os programas de comentários, e comentar, ela própria, as lutas e até as bobagens que, algumas vezes, quase nocauteiam a gente, vindas de alguns comentaristas que nem sempre sabem muito o que falar, e dizem qualquer nota, nos intervalos dos socos, chutes, chaves e quedas.

Embora os eventos de vale-tudo tenham tido início no Brasil e se desenvolvido no Japão, o maior evento mundial de MMA é o Ultimate Fighting Championship, criado nos EUA, nos anos 1990, por Rorion Gracie, o maior empreendendor da família criadora do estilo brasileiro de ju-jutsu, hoje conhecido e reconhecido como Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ), ou Gracie Jiu-Jitsu. De início, os brasileiros ganhavam praticamente todas as edições, principalmente por causa do Jiu-Jitsu dos Gracie, que os americanos, ingleses, franceses, russos, japoneses, ninguém entendia direito o que era. Com o tempo, os gringos foram pegando a manha, vendo os vídeos de BJJ, e eles mesmos praticando a chamada arte suave, de modo que a coisa das vitórias retumbantes meio que se democratizaram. Os brasileiros continuaram destacados nos combates, mas agora sem aquela exclusividade dos primeiros tempos.

Carlson Gracie contra Waldemar Santana
nos momentos pioneiros e heróicos do Vale-Tudo brasileiro

O evento evoluiu, tornou-se mais vendável. De campeonato por chaves que era, sem luvas ou categorias de peso, e extremamente violento, passou a evento de lutas casadas, organizado por categorias, utilizando as luvas de dedos (40 onças) e se transformando no esporte que mais cresce nos Estados Unidos. Inclusive freqüentado por celebridades de outras modalidades esportivas, e até do teatro, do cinema, da literatura, e outros quetais. A essas alturas, Rorion Gracie já havia vendido a sua parte no Ultimate, e no final da história ficou tudo sob a presidência de Dana White, o homem de gênio que deu ao campeonato free style mais famoso do mundo o seu formato atual, palatável, altamente vendável , respeitável e milionário.

 Sempre gostei de vale-tudo, e isto desde menino, quando via as lutas de Carlson Gracie contra desafiantes estrangeiros, no Maracanãzinho, ou os Heróis do Ringue, na antiga TV Continental, canal 9 e na TV Rio, canal 13. Eu era menino, nessa época, por volta dos oito anos de idade. Meu irmão, Julio, dois anos mais velho, praticava judô. Depois, em casa, treinava comigo, ensinando-me um judô “mexido” e não muito “cavalheiresco”, que logo batizamos “Jiu-Julio”, e usamos muito, pra lutar entre nós (“à brinca ou à vera”), e que pra mim teve grande validade pra me defender dos provocadores, na escola. Coisa de menino mesmo...

Rickson Gracie sobre Bud Smith
no Japan Open

Ultimamente não tenho acompanhado muito os eventos de Vale-Tudo. Verinha é que é a torcedora de plantão, de modo que é ela quem me informa, de tempos em tempos, a respeito do ranking atualizado, das subidas e descidas dos melhores lutadores (brasileiros ou não) e de quem está de posse do cinturão de qual categoria.

Foi por Verinha mesmo que fiquei sabendo de uma luta, que acontecerá na madrugada deste domingo, envolvendo dois dos melhores e maiores lutadores de MMA de todos os tempos: Vitor Belfort e Anderson Silva. Enquanto o evento não chegava, eu adiava uma decisão importante, que era escolher pra quem eu iria torcer. Como ficamos sabendo disso no ano passado, há alguns bons meses, deixei a coisa rolar. “A luta é só em fevereiro do ano que vem”, eu pensava, e não me preocupava mais com aquilo.

Royler Gracie finalizando Asahi
no Japan Open III

Acontece que o ano que vem chegou. E com ele, logo logo, fevereiro e a luta... Mas quem disse que eu consegui tomar uma decisão? Sou (muito) fã dos dois e ambos são carne de pescoço (ou casca-grossíssima, como se diz nos eventos de MMA). De modo que fico sem saber por quem torcer. E dá mesmo pra escolher? Olha só...


Vitor Belfort, trinta e cinco anos incompletos, peso médio, começou a lutar muito jovem. Aos dezenove anos já era considerado um fenômeno e estreeou no MMA internacional, derrotando Jon Hesse, no SuperBrawl, nocauteando-o nos primeiros doze segundos de luta. Transferiu-se depois para o Ultimate Fighting, conquistando uma série de espetaculares vitórias, e sofrendo poucas derrotas em sua carreira. Passou por problemas bastante graves, de ordem familiar, e andou afastado dos ringues e octógonos, voltando a lutar depois na Inglaterra, no hoje extinto Cage Rage. De lá para cá, vem treinando para voltar em grande estilo à carreira. Sua forma de lutar sempre foi impactante. Profundo conhecedor da luta de solo, por meio do BJJ que lhe foi transmitido pelo lendário Carlson Gracie, ele, no entanto, prefere utilizar os punhos extremamente rápidos e afiados (é especialista também em boxe inglês), em geral levando o adversário ao solo, para nocauteá-lo com golpes demolidores, rapidíssimos e muito precisos.



Anderson Silva, trinta e sete anos incompletos, vem da Chute-Boxe, uma academia de Curitiba que deu origem a alguns dos maiores compeões do mundo, como Wanderley “Cachorro Louco” Silva, por exemplo, que fez fama no Japão e foi o único brasileiro a derrotar Sakuraba, o japonês que nenhum brasileiro conseguira “botar pra baixo” antes. Anderson tem um estilo único. Elegante — especialista no Muay Thai, o temível boxe tailandês — braços e pernas longas (que contribuíram para o seu apelido Spider), luta como se dançasse. O combate mais violento vê sempre Anderson Silva como um bailarino que movimenta-se com uma leveza e elegância que surpreendem pela rapidez e impacto, com os quais o jovem brasileiro negro, de origem humilde, põe pra dormir os bem nutridos estadunidenses, japoneses, europeus, e quem mais conseguir chegar perto dele, no ranking dos pesos médios e no ringue. É talvez o único lutador que consegue manter a coreografia cinematográfica nos combates em que realmente se golpeia e derruba, sem ficção. É o detentor invicto do cinturão da categoria. Mas, vez por outra, deu-se ao luxo de ganhar peso, para enfrentar, em combates sem valer cinturões, lutadores bem mais pesados do que ele, vencê-los e voltar a seu peso, para defender o cinturão dos médios, contra ousados mas frustrados desafiantes.

Nesta madruga, por volta da 1h da manhã, no canal Combat Sport e, talvez, no Sport TV, esses dois gigantes das arte marciais mistas enfrentam-se no octagon do Ultimate, montado desta vez em Las Vegas. Por qual deles você torceria? Qual deles você esperaria vencer, para celebrar a vitória que só os gênios do combate, semi-deuses das artes marciais, conseguem conquistar?

Eu ainda não sei. Até lá, ou até daqui a pouco (o evento está começando), se eu não me decidir, que vença o melhor. Pelo menos o melhor da noite, porque, mesmo ao final do combate, dificilmente saberemos qual desses dois guerreiros é realmente o melhor.

 (...)

E deu... Anderson Silva!

Spider vence mais uma vez,
mantém o cobiçado cinturão dos pesos médios
e o título de melhor do mundo, peso a peso



Sabe que eu fiquei surpreso? Fiquei mesmo. E não foi pelo Vitor ter perdido não. Isso aí era uma incógnita. Ainda que The Spider fosse o favorito, Belfort tinha condições de derrotá-lo, sem dúvida. Mas poderia também ser derrotado, ninguém sabia o que iria acontecer. Minha surpresa foi no como a coisa aconteceu.


Iniciada a luta, os dois ficaram tempo demais se estudando, a ponto de levar o comentarista a dizer o que todo mundo já estava pensando: que a luta poderia surpreender e ser aquele combate chocho, em que ninguém toma a iniciativa, e ficam ambos tentando acumular pontos. O público, em Las Vegas, talvez tenha pensado o mesmo, porque embora tenha aplaudido a ambos, quando de sua entrada, agora começava a ensaiar uma vaia impaciente de quem quer ver luta e sabe que quem está no octógono é de ação e não de hesitação.


Belfort tomou a iniciativa,chutando Silva, e chegando a acertar-lhe um soco no rosto. Depois levou-o ao chão, golpeando-o rapidamente, mas sem muito sucesso. Spider não se impressionou com aquilo. Levantou-se rapidamente e continuou estudando o adversário. Só agora a gente vê que ele estava era sentindo a distância média em que deveria atuar.


Se era isso ou não, a gente não tem certeza. Mas o fato é que, antes dos quatro minutos do primeiro round, Anderson Silva chutou pra frente, com a canhota e simplesmente nocauteou o desafiante. Fim de luta.


É aí que eu me surpreendo. Rápido demais. No final da história, o dançarino nocauteou sem firulas o adversário, que é conhecido por ser dos lutadores mais rápidos e objetivos do mundo.


Mais uma vitória para o grande campeão, que mantém o cinturão, contra tudo e contra todos, e continua sendo, como insiste em afirmar the boss Dana White, o melhor lutador peso a peso (em todas as categorias) do mundo, em todos os tempos.


Evoé, Anderson!


 








9 comentários:

  1. Gosto muito do Anderson Silva, um atleta como poucos. MAS MINHA TORCIDA É PELO VITOR BELFORT!!!VAI VITINHO, METE A PANCA NELE!! BOTA PRÁ DORMIR!!! NOCAUTEEEEE!!!

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  2. Verinha empolgadíssima... A luta é daqui a pouco e o clima está a mil. Vamos ver o que rola.Continuo indeciso...

    Beijossss,
    Marco

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  3. Marcão
    Outro dia estava ssistindouma luta dessas, meio por acaso, e quando poassei perto da TV levei uma pernada que fui parar longe.
    Olhei pra TV e estavam os dois caras me chamando para encarar os dois.
    Fui não. Chinguei, chamei os caras de mulherzinha, que eles não eram homens para pular dentro!
    Cara, ficou um clima de silencio total no estádio.
    Aí os dois de olharam e partiram pra cima de mim.
    Ainda bem que o controle remoto funcionou.
    Desliguei e nunca mais assisti a uma luta dessas.
    Vai que eles se lembrem de mim.
    PJ

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  4. Em tempo:
    Eu xinguei os dois com x.
    Escrevi errado.................ô vergonha, sô!
    PJ

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  5. Numa hora dessas, amigo, nada como o controle remoto...

    Mas acho que a essas alturas eles já esqueceram. Pode acompanhar os campeonatos novamente...

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  6. Tristeza ver o Belfort perder tão rápido, e ir a noucate desse jeito! Me deu uma certa antipatia do negão, que depois acabou me ganhando por finamente elogiar e prestigiar a carreira do Vitor. Ai tudo bem, desculpei ele...kkkkk....
    Mas to torcendo pela volta do Vitor!

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  7. Dani, vou fazer uma confissão aqui, que não havia feito lá no inicio do artigo: embora realmente não conseguisse me decidir por quem torcer, eu tinha uma simpatiazinha pelo Vitor Belfort. Curto demais o Anderson Silva, mas de uns tempos pra cá tenho achado a figura meio cheia de si, "mascarado", como bem disse o própio Belfort. Alguém tirar o cinturão dele, principalmente o Vitinho (que é veterano, mas é mais novo do que o 'Spider" em ainda por cima, tão brasileiro quanto ele) viria a calhar.

    Mas tem um problema. Mesmo que conseguisse arrebatar o cinturão ao campeoníssimo Anderson Silva, conseguiria Vitor Berlfort mantê-lo por tanto tempo quando o tem mantido o dono atual? Ou perderia mais cedo ou mais tarde pra um gringo-ianque-japa-russo? Anderson Silva não deixa o cinturão sair da mão dele não, e diz que ficará nessa até a sua aposentadoria como lutador, que deverá acontecer em breve. É isso que gosto no negão, com toda a marra que ele possa apresentar.

    Longa vida ao Spider! Viva Anderson Silva!

    Beijossss,
    Marco

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  8. POH
    Eu treino faz tempo mas sempre me inspirei no campeão Anderson Silva.
    Anderson (the spider) Silva é e sempre será,
    O MELHOR !!!!!!

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  9. Marco Antonio Coutinho6 de setembro de 2011 07:10

    Realmente,Caio, Anderson Silva parece realmente se o melhor. E já é considerado o melhor peso a peso, e o melhor de todos os tempos.

    Só espero que ele não adie muito a sua (anunciada) aposentadoria. Que ele saia no auge, antes de começar a apanhar da molecadinha, como pode acontecer com qualquer um (veja Couture), porque invencível, invencível mesmo, ninguém é...

    Abraço,

    Marco

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