domingo, 10 de abril de 2011

Será que você vai gostar?

Jessie J.

De tempos em tempos, tenho feito a pergunta acima, por meio de uma newsletter virtual de mesmo nome, que envio a alguns amigos, pra mostrar uma canção, seja ela de lançamento recente, ou coisa antiga mesmo.


Estive pensando e achei que, em vez de ficarem duas coisas separadas – o blog e a newsletter – posso colocar uma dentro do outro, e assim alcançar a um número maior de pessoas.

Então ficamos assim. O E por falar nisto... continua como um espaço dedicado principalmente à literatura, sobretudo crônicas e poesia. Eventualmente também a artigos sobre cultura, terapêuticas, comportamento, etc. E, de vez em quando, envio um boletim do Será que você vai gostar?, só pra mudar um pouco o ritmo e partilhar boa música.

O primeiro envio da newsletter vem em conseqüência de um vídeo que minha querida amiga Luciene, de Sampa, postou no Facebook.

Luciene mostrou pra gente o vídeo da genial Adele, inglesinha surgida na mesma época da explosão da pequena daimon, Amy Winehouse . Adoro as duas, embora Amy tenha um lugar de destaque pra mim, hors concours mesmo... Agora proponho pra vocês a fantástica Jessie J. . Britânica, como Amy e Adele, Jessie faz um estilo mais pop, bem diferente do sempre bem-vindo black classicão e do excelente standard de Adele, e do soberbo soul/blues/jazz desamericanizado de minha querida Amy.



Britânica, como Amy e Adele,
Jessie faz um estilo mais pop



No entanto, Jessie J. varia bastante nesse nicho pop. Bonita, simpática, às vezes cínica, outras mais gaiata mesmo, Jessie tem, sobretudo, talento e atitude. Duas canções dela estão atualmente em destaque. A primeira, Do it like a dude cujo vídeo coloco aqui, é um pouco mais pro pesado. A gaiatice da menina suaviza um pouco o clima. Vale a pena conferir. Importante ficarmos atentos também às bailarinas, na fantasia de bad girls. As performances são curtas, mas vigorosas e belas.




O outro vídeo de Jessie J. que desejo partilhar com vocês é o da canção Price Tag, que ela gravou (e atuou, no vídeo), ao lado do rapper B.O.B. Aqui o lance é bem mais pop mesmo, e o charme gaiato da menina dá mais o ar de sua graça. Mas sempre com atitude e com uma voz que é como um pit bull: não muito “grande”, mas consistente, eficaz, forte e exuberante. Jessey!


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sábado, 26 de março de 2011

A mim...


                                              Voa até minha noite
                                                               a alma da bruxa

quinta-feira, 17 de março de 2011

Não. Não vou defender Khadafi...


Mas também não vou entrar nessa onda histérica contra o cara, que poderia se justificar, caso quem está por trás dela fosse, pelo menos, confiável.

Não que eu ache Kadhafi um santo. Longe disso. Embora eu já o tenha admirado por vários motivos, não descarto a possibilidade dele ser um ditador e/ou de ser uma pessoa cruel.

Mas cuidado com esses gestos nobres da ONU e das potências ocidentais. Querem ver? Vamos dar uma historiadinha básica...

Guerra do Golfo

Lembram? Foi uma guerra contra uma figura desprezível, sim, Saddam Hussein. Mas não custa lembrar que, antes, Saddam era amiguinho dos EUA, que davam força pra ele, para que controlasse os mujahedim da região e protegesse o petróleo contra rivais do Tio Sam. Inclusive, na guerra do Iraque contra o Irã (guerra sangrentíssima, de ambos os lados) os Estados Unidos apoiaram o Iraque e Saddam Hussein. Mas a gente fica na dúvida: qual era o verdadeiro Saddam? Aquele “bravo líder”, aliado dos estadunideses no Oriente Médio, ou o ditador sanguinário que eles mandaram enforcar alguns anos mais tarde?

Depois, aí sim, veio a Guerra do Golfo. Saddam Hussein, por cruel e ditadorial que fosse (e aparentemente era mesmo), tinha suas razões para invadir o Kwait. Na época, Hussein começava a trocar o sistema de petrodólares pelo de petroeuros, o que piorou a situação dele junto aos EUA – inimigos fraternos da então nascente União Européia - que já vinham fritando o cara e colocando de lado a velha amizade. A invasão foi justamente pelo Kwait apoiar os EUA, interferindo nos preços do petróleo, pra esvaziar Saddam. Isto equivale a uma declaração de guerra. Fora o fato de que o Iraque sempre reivindicou o Kwait como parte de seu território. Segundo essa versão, o Kwait, assim como o Líbano, seria uma invenção do Ocidente.

Duvidosa vitória

Finda a Guerra do Golfo, ficou a idéia de que os EUA Unidos haviam vencido, o que foi questionado por intelectuais dos próprios EUA, como Timothy Leary, por exemplo, que – entrevistado por Marília Gabriela, quando de sua visita ao Brasil, ainda nos anos 1990 – escutou dela uma pergunta que incluía a afirmação “tendo os Estados Unidos ganho a Guerra do Golfo”, e respondeu à minha atônita colega: — Mas quem te disse que meu país ganhou a guerra? Os Estados Unidos ganharam uma guerra contra o Iraque sim, só que foi a guerra da informação, a guerra da mídia.



Aisha, filha de Khadafi:
“Digo aos líbios e líbias de quem gosto
e que gostam de mim,
que resisto nesta casa”


Mas, ainda sobre a Guerra do Golfo, não é difícil lembrarmos daqueles garotos, pilotos dos caças e bombardeiros estadunidenses, que vinham super-empolgados dos bombardeios sobre o Iraque, tendo colocado em prática o que já vinham aprendendo desde crianças (porque adolescentes eles ainda eram), nos videogames. Voltaram curtindo, como quem ganha um jogo, já que a guerra atual é “limpa”, você não olha nos olhos do inimigo, enquanto tenta enfiar nele a espada ou a lança, como ocorria no passado. É uma guerra sem culpa. Para aqueles meninos, era como vencer num game.

Às acusações internacionais, de que os moleques e, conseqüentemente, os EUA haviam bombardeado civis, inclusive hospitais, onde já havia feridos de guerra (muitos deles crianças), respondeu-se que não. Que os EUA tinham excelência tecnológica, que os seus mísseis eram de “precisão cirúrgica” (acho que eram os “Patriot”, não estou certo), e que só foram utilizados em alvos militares e/ou estratégicos. E que mesmo que houvesse hospitais e outras instituições civis do lado dos alvos militares, eles não haviam sido e não seriam atingidos, exatamente pela “precisão cirúrgica” das bombas aéreas americanas.

Depois de dois anos, não se falava mais em Guerra do Golfo. O assunto não interessava mais nem à mídia, nem à opinião pública. Mas foi aproximadamente nessa mesma época (por volta de dois anos após o fim da Guerra), que saiu nos jornais uma notinha (eu mesmo li), mas uma notinha assim, pequetitinha mesmo, num cantinho da página, que noticiava terem sido aqueles mísseis de “precisão cirúrgica”, utilizados na Guerra do Golfo, na verdade um material em teste, pela indústria bélica dos EUA, e que havia sido considerado um fracasso tecnológico… E foi só. Não se tocou mais no assunto.


Há pouco tempo, chefes de estado de vários países
tentaram cair nas graças de Khadafi.
Ele não era mais o terrível terrorista


Então, embora a maioria das pessoas não tenha se dado conta dessa matéria (não era à toa que era pequenina, num cantinho esquecido qualquer da editoria internacional), o que ficou patente é que os EUA aproveitaram a guerra contra o Iraque para fazer do país atacado um campo de provas para seus mísseis, que acabaram ficando muito abaixo das expectativas e fracassaram. Assim como os mísseis Patriot eram o cocô do cavalo do bandido, tudo indica, claro, que civis e hospitais foram bombardeados SIM. Mas adivinha o que ficou na memória da opinião pública internacional, que vê TV e lê jornais, que se acha, por isto, tão informada e descolada, mas que só se lembra mesmo do capítulo de ontem da novela e do show politicamente correto do U-2?...

A queda do Iraque

Mais recentemente, como todo mundo sabe, os EUA invadiram o Iraque, com o pretexto de procurar por armas de destruição em massa, que Saddam teria e não queria entregar à ONU, armas proibidas pela Convenção de Genebra. Capturaram Saddam Hussein (que posteriormente foi executado) e ocuparam o país, recebidos como salvadores pelo povo iraquiano. Mas hoje esses salvadores não saem mais do Iraque e são simplesmente odiados pelo mesmo povo que Hussein oprimia e que os recebeu tão entusiasticamente.


O chamado "mundo livre"
consegue, finalmente, tirar Saddam do caminho
de seus campos de petróleo


O engraçado (se não fosse trágico) é que, da mesma forma que o desmentido microscópico sobre os milagrosos mísseis americanos, uma outra nota foi publicada na mídia, também sem grande destaque, dando conta de que as famosas e temidas armas de destruição em massa de Saddam Hussein jamais existiram. Foram invenção de um determinado opositor de Saddam, para forçar o Ocidente a depô-lo. O próprio inventor do boato, da falsa denúncia, foi quem confessou isto à imprensa internacional, e o fez alegremente, sem reprimendas da parte de quem quer que fosse, justificando a mentira pela “necessidade” de tirar Saddam Hussein do poder. E a seríssima ONU organizou visitas ao Iraque, em busca das tais armas, baseada unicamente num boato. Pode um negócio desses?

As “revoltas populares” do norte da África

Agora, como peças de dominó, começa a cair, sob supostas revoluções populares, uma série de países árabes, até chegar à Líbia do coronel Khadafi, a quem se quer depor pelo menos desde o governo Reagan, nos anos 80 do século passado. Naquelas tentativas, valeu tudo. Até acusar Khadafi de qualquer atentado terrorista, praticado em qualquer parte do mundo, como o da discoteca na Alemanha Ocidental, freqüentada por soldados americanos, mesmo que, depois de se bombardear a Líbia, matando-se muitas pessoas - dentre elas pelo menos uma criança, Hannah, filha de Khadafi - tenha-se admitido não haver evidências de que o atentado tenha sido realmente obra do líder árabe.

Incrível como, agora, de uns meses pra cá, tudo aconteça tão certinho. Como os “levantes populares” dão-se em seqüência, de forma tão organizada. Organizada como não são, como jamais foram os povos daquela região, que se dividem em tribos rivais dentro de seus próprios países, com diferenças seculares entre si, e mais ainda em relação a outras nações. Essas e outras coisas curiosas precisavam fazer a gente pensar pelo menos um pouco, antes de sair assinando, revoltados, petições para isso ou aquilo.


Khadafi na época da tomada do poder, e Khadafi hoje


Não lhes parece curioso, por exemplo, que Osni Mubarak, do Egito, tenha sido por tanto tempo mimado pelo Ocidente, que o chamava de "Presidente Mubarak", mesmo estando ele havia tanto tempo no poder, e que agora, de repente, a mídia do mundo inteiro tenha passado a chamá-lo de "ditador do Egito", assim sem mais nem menos?

Não lhes parece também curioso, que o Irã - tão democrático quanto o salto do meu sapato - esteja "dando força" e elogiando a "resistência dos povos contra opressores", logo ele, Irã, que sempre odiou Kadhafi e sempre, desde o início da pretensa "revolução" islâmica, tem oprimido o seu próprio povo, enforcado homossexuais, fuzilado mujahedins e mulheres em luta pelos seus direitos, e apedrejado adúlteros supostos ou reais?

Não lhes parece curioso, ainda, que esses povos, de forma tão "espontânea", tenham se sublevado pela democracia, inclusive na Líbia, e, de repente, a mídia esteja dizendo que os "cidadãos comuns" conseguiram uniformes e armas, tudo isto pela ação de desertores do antigo regime? Não lhes parece estranho a mídia, num momento dizendo que é o homem comum, o povão, que está se sublevando, e no momento seguinte citar o nome desta ou daquela cidade como "a sede do comando rebelde"? Não lhes parece estranho que tantos deles usem o barrete afegão?...



A guarda pessoal de Khadafi,
composta exclusivamente de mulheres
(EPA - Mike Nelson)


Não vou defender Kadhafi, embora eu já o tenha admirado em alguns aspectos. Por sua capacidade de liderança que derrubou o rei Idris, fantoche do Ocidente, e cujos abusos ninguém do lado de cá do mundo via com maus olhos, por motivos óbvios. Pelo seu extraordinário Livro Verde – tratado político, econômico e social, que prima pela democracia direta, enquanto denuncia que “toda representação é uma impostura”. Por sua pertença à nobre tradição sufi – no caso a Ordem Sanusi, em seu ramo mais libertário, que renega até os mestres tão comuns no sufismo ortodoxo, e prega que o fiel deve ser iniciado por sua própria consciência e mais ninguém... Não, não vou defender Khadafi. Quem me garante que ele não traiu a espiritualidade sufi? Quem pode me afirmar que ele realmente cumpriu, na prática, o que ele próprio pregava no Livro Verde? O que me assegura que ele é totalmente inocente de tudo que o Ocidente o tem acusado já há tanto tempo? Já há muito que aprendi a reconhecer os homens não por suas intenções, mas por suas ações concretas. Não. Não vou vou defender Kadhafi.


O discutido Livro Verde, de Khadafi:
base teórica - política, social e econômica -
da 'República das Massas', preconizada
pelo líder Líbio


Apenas me nego a acreditar automaticamente nos “mocinhos” deste filme. Se não ponho a mão no fogo por alguém que até há pouco tempo admirava, porque o faria por aqueles em quem nunca sequer confiei? Já viu, né? Os EUA estão armando os rebeldes, contra Muammar Khadafi, da mesma forma que armaram os guerrilheiros e mercernários afegãos, e Osama Bin Laden, contra os soviéticos, e o Hamas, contra a Fatah e a OLP. Vejam o que sobrou, como monstruosos e bastardos filhos desses casamentos.

O que tem por trás disso é barra-pesadíssima, e isto vai ficar claro a médio prazo.

Nós já perdemos o direito à inocência, amiguinhos.

Ou então... sei lá, esqueçam...



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pássaros


                                                                    Goya
                

                          Confundir um pássaro que se julga livre
                          com noites bruscas e canções de ódios inocentes:

                          nada mal para tua sobrevivência.

                         Mas tua sobrevivência
                         em quartos vazios, metralhados antes
                                                                             de tua chegada,
                         acreditava-se isenta de pássaros
                         e possuidora das armas dos irmãos
                         que não sabem que tu existes,
                         nem que os observas de dentro
                         de teu frio.

                         Teu sono povoado de poetas do ópio
                         atrai aves sementeiras e sem nome
                         — vindas de estrelas próximas e países distantes —
                         que morrem pelo caminho,
                         ou se perdem pelos pântanos,
                                                                durante a madrugada.

                         Surpreender um sobrevivente
                         com repentino despertar
                         é tolice que te custa caro
                         e desnuda tuas canções de infância e morte.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Vitor Belfort VS Anderson Silva



Por quem torcer?

Tem muita gente que fica confusa e até desapontada comigo, quando sabe que eu gosto de MMA (Mixed Martial Arts), que nada mais é do que o nosso antigo ‘Vale-Tudo’, devidamente industrializado, comercializado e elevado à categoria de esporte emergente, nos EUA. Fazer o que? Não sou chegado ao futebol, nunca fui. E violência por violência, prefiro aquela sincera, sem disfarces, mas elegante e bela, sob controle e dentro de um código de honra, como é a praticada marcialmente nos eventos de Vale-Tudo, do que a desenvolvida “crocodilianamente” nos campos de futebol, fora do contexto, e com prolongamentos para os arredores dos estádios. É razoavelmente rara a pancadaria de torcidas dos eventos de Vale-Tudo... Neles, a briga não é briga, é luta, e ocorre dentro dos ringues e octógonos. E pronto. Ficamos melhor assim.
Muitos daqueles que sentiam aflição, quando me viam torcendo pela TV, em torno de lutas clássicas — como as do quase mitológico Rickson Gracie, no Japão, de Wanderley “Cachorro Louco” Silva, Alexandre Pequeno e Jacaré, também na terra do sol nascente, ou de Minotauro, Minotouro, Carlão Barreto e Vitor Belfort, na Inglaterra, Japão e EUA, e, mais recentemente, Lyoto Machida, Thales Leites, Tiago Silva, Tiago Alves, Shogum e Anderson Silva, na terra do Tio Sam (todos brazucas) — passaram a admirar os lutadores e sua arte, com apenas uma ou duas olhadinhas nos combates, a meu convite. Lembro-me de uma namorada que, aflitíssima, perguntou-me como eu tinha coragem de assistir aquilo, logo eu, que era um cara sensível, do bem, artista, escritor, etc. Era uma luta de Royler Gracie, contra um estadunidense cujo nome não me lembro agora. Convidei-a a ver alguns momentos do combate, para entender melhor o porquê do meu interesse. Ela sentou-se ao meu lado, aflita, e a meio de caminho, ainda se afligia, mas aí já torcendo pelo mais técnico e mais elegante da família Gracie. E quando ele finalizou o oponente com um arm lock, ela simplesmente fez um oooh!!!! , enquanto arregalava os olhos, completando depois com um bonito isso aí, cara...


Já minha irmã, Verinha, a princípio também perplexa com meu interesse nos combates livres, aceitou meu convite para assistir a uma luta... a partir da qual viu uma segunda, uma terceira, e terminou assinando um canal de TV especializado em esportes marciais. Hoje, ela está mais por dentro do que eu, e conhece a maior parte do jargão de lutas, qual lutador é mais ou menos técnico, acompanhando fielmente o melhor dos campeonatos, sem descuidar de ver os programas de comentários, e comentar, ela própria, as lutas e até as bobagens que, algumas vezes, quase nocauteiam a gente, vindas de alguns comentaristas que nem sempre sabem muito o que falar, e dizem qualquer nota, nos intervalos dos socos, chutes, chaves e quedas.

Embora os eventos de vale-tudo tenham tido início no Brasil e se desenvolvido no Japão, o maior evento mundial de MMA é o Ultimate Fighting Championship, criado nos EUA, nos anos 1990, por Rorion Gracie, o maior empreendendor da família criadora do estilo brasileiro de ju-jutsu, hoje conhecido e reconhecido como Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ), ou Gracie Jiu-Jitsu. De início, os brasileiros ganhavam praticamente todas as edições, principalmente por causa do Jiu-Jitsu dos Gracie, que os americanos, ingleses, franceses, russos, japoneses, ninguém entendia direito o que era. Com o tempo, os gringos foram pegando a manha, vendo os vídeos de BJJ, e eles mesmos praticando a chamada arte suave, de modo que a coisa das vitórias retumbantes meio que se democratizaram. Os brasileiros continuaram destacados nos combates, mas agora sem aquela exclusividade dos primeiros tempos.

Carlson Gracie contra Waldemar Santana
nos momentos pioneiros e heróicos do Vale-Tudo brasileiro

O evento evoluiu, tornou-se mais vendável. De campeonato por chaves que era, sem luvas ou categorias de peso, e extremamente violento, passou a evento de lutas casadas, organizado por categorias, utilizando as luvas de dedos (40 onças) e se transformando no esporte que mais cresce nos Estados Unidos. Inclusive freqüentado por celebridades de outras modalidades esportivas, e até do teatro, do cinema, da literatura, e outros quetais. A essas alturas, Rorion Gracie já havia vendido a sua parte no Ultimate, e no final da história ficou tudo sob a presidência de Dana White, o homem de gênio que deu ao campeonato free style mais famoso do mundo o seu formato atual, palatável, altamente vendável , respeitável e milionário.

 Sempre gostei de vale-tudo, e isto desde menino, quando via as lutas de Carlson Gracie contra desafiantes estrangeiros, no Maracanãzinho, ou os Heróis do Ringue, na antiga TV Continental, canal 9 e na TV Rio, canal 13. Eu era menino, nessa época, por volta dos oito anos de idade. Meu irmão, Julio, dois anos mais velho, praticava judô. Depois, em casa, treinava comigo, ensinando-me um judô “mexido” e não muito “cavalheiresco”, que logo batizamos “Jiu-Julio”, e usamos muito, pra lutar entre nós (“à brinca ou à vera”), e que pra mim teve grande validade pra me defender dos provocadores, na escola. Coisa de menino mesmo...

Rickson Gracie sobre Bud Smith
no Japan Open

Ultimamente não tenho acompanhado muito os eventos de Vale-Tudo. Verinha é que é a torcedora de plantão, de modo que é ela quem me informa, de tempos em tempos, a respeito do ranking atualizado, das subidas e descidas dos melhores lutadores (brasileiros ou não) e de quem está de posse do cinturão de qual categoria.

Foi por Verinha mesmo que fiquei sabendo de uma luta, que acontecerá na madrugada deste domingo, envolvendo dois dos melhores e maiores lutadores de MMA de todos os tempos: Vitor Belfort e Anderson Silva. Enquanto o evento não chegava, eu adiava uma decisão importante, que era escolher pra quem eu iria torcer. Como ficamos sabendo disso no ano passado, há alguns bons meses, deixei a coisa rolar. “A luta é só em fevereiro do ano que vem”, eu pensava, e não me preocupava mais com aquilo.

Royler Gracie finalizando Asahi
no Japan Open III

Acontece que o ano que vem chegou. E com ele, logo logo, fevereiro e a luta... Mas quem disse que eu consegui tomar uma decisão? Sou (muito) fã dos dois e ambos são carne de pescoço (ou casca-grossíssima, como se diz nos eventos de MMA). De modo que fico sem saber por quem torcer. E dá mesmo pra escolher? Olha só...


Vitor Belfort, trinta e cinco anos incompletos, peso médio, começou a lutar muito jovem. Aos dezenove anos já era considerado um fenômeno e estreeou no MMA internacional, derrotando Jon Hesse, no SuperBrawl, nocauteando-o nos primeiros doze segundos de luta. Transferiu-se depois para o Ultimate Fighting, conquistando uma série de espetaculares vitórias, e sofrendo poucas derrotas em sua carreira. Passou por problemas bastante graves, de ordem familiar, e andou afastado dos ringues e octógonos, voltando a lutar depois na Inglaterra, no hoje extinto Cage Rage. De lá para cá, vem treinando para voltar em grande estilo à carreira. Sua forma de lutar sempre foi impactante. Profundo conhecedor da luta de solo, por meio do BJJ que lhe foi transmitido pelo lendário Carlson Gracie, ele, no entanto, prefere utilizar os punhos extremamente rápidos e afiados (é especialista também em boxe inglês), em geral levando o adversário ao solo, para nocauteá-lo com golpes demolidores, rapidíssimos e muito precisos.



Anderson Silva, trinta e sete anos incompletos, vem da Chute-Boxe, uma academia de Curitiba que deu origem a alguns dos maiores compeões do mundo, como Wanderley “Cachorro Louco” Silva, por exemplo, que fez fama no Japão e foi o único brasileiro a derrotar Sakuraba, o japonês que nenhum brasileiro conseguira “botar pra baixo” antes. Anderson tem um estilo único. Elegante — especialista no Muay Thai, o temível boxe tailandês — braços e pernas longas (que contribuíram para o seu apelido Spider), luta como se dançasse. O combate mais violento vê sempre Anderson Silva como um bailarino que movimenta-se com uma leveza e elegância que surpreendem pela rapidez e impacto, com os quais o jovem brasileiro negro, de origem humilde, põe pra dormir os bem nutridos estadunidenses, japoneses, europeus, e quem mais conseguir chegar perto dele, no ranking dos pesos médios e no ringue. É talvez o único lutador que consegue manter a coreografia cinematográfica nos combates em que realmente se golpeia e derruba, sem ficção. É o detentor invicto do cinturão da categoria. Mas, vez por outra, deu-se ao luxo de ganhar peso, para enfrentar, em combates sem valer cinturões, lutadores bem mais pesados do que ele, vencê-los e voltar a seu peso, para defender o cinturão dos médios, contra ousados mas frustrados desafiantes.

Nesta madruga, por volta da 1h da manhã, no canal Combat Sport e, talvez, no Sport TV, esses dois gigantes das arte marciais mistas enfrentam-se no octagon do Ultimate, montado desta vez em Las Vegas. Por qual deles você torceria? Qual deles você esperaria vencer, para celebrar a vitória que só os gênios do combate, semi-deuses das artes marciais, conseguem conquistar?

Eu ainda não sei. Até lá, ou até daqui a pouco (o evento está começando), se eu não me decidir, que vença o melhor. Pelo menos o melhor da noite, porque, mesmo ao final do combate, dificilmente saberemos qual desses dois guerreiros é realmente o melhor.

 (...)

E deu... Anderson Silva!

Spider vence mais uma vez,
mantém o cobiçado cinturão dos pesos médios
e o título de melhor do mundo, peso a peso



Sabe que eu fiquei surpreso? Fiquei mesmo. E não foi pelo Vitor ter perdido não. Isso aí era uma incógnita. Ainda que The Spider fosse o favorito, Belfort tinha condições de derrotá-lo, sem dúvida. Mas poderia também ser derrotado, ninguém sabia o que iria acontecer. Minha surpresa foi no como a coisa aconteceu.


Iniciada a luta, os dois ficaram tempo demais se estudando, a ponto de levar o comentarista a dizer o que todo mundo já estava pensando: que a luta poderia surpreender e ser aquele combate chocho, em que ninguém toma a iniciativa, e ficam ambos tentando acumular pontos. O público, em Las Vegas, talvez tenha pensado o mesmo, porque embora tenha aplaudido a ambos, quando de sua entrada, agora começava a ensaiar uma vaia impaciente de quem quer ver luta e sabe que quem está no octógono é de ação e não de hesitação.


Belfort tomou a iniciativa,chutando Silva, e chegando a acertar-lhe um soco no rosto. Depois levou-o ao chão, golpeando-o rapidamente, mas sem muito sucesso. Spider não se impressionou com aquilo. Levantou-se rapidamente e continuou estudando o adversário. Só agora a gente vê que ele estava era sentindo a distância média em que deveria atuar.


Se era isso ou não, a gente não tem certeza. Mas o fato é que, antes dos quatro minutos do primeiro round, Anderson Silva chutou pra frente, com a canhota e simplesmente nocauteou o desafiante. Fim de luta.


É aí que eu me surpreendo. Rápido demais. No final da história, o dançarino nocauteou sem firulas o adversário, que é conhecido por ser dos lutadores mais rápidos e objetivos do mundo.


Mais uma vitória para o grande campeão, que mantém o cinturão, contra tudo e contra todos, e continua sendo, como insiste em afirmar the boss Dana White, o melhor lutador peso a peso (em todas as categorias) do mundo, em todos os tempos.


Evoé, Anderson!


 








sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Caçador I I


Eu era o extasiado que acreditavas ver.
Perca-me de vista.
Sou o caçador, o passageiro.
Sou o viajante.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Vivências Fora do Corpo - entrevista no Sem Censura

Atendendo a pedidos de meus leitores e inúmeros amigos, posto aqui alguns trechos de minha participação no programa Sem Censura, acontecida em agosto deste ano (2010). Estive algumas vezes no programa, pra falar de meus livros.


É comum as pessoas não terem como ver o programa, em virtude do horário (é um programa vespertino). Em geral, o Sem Censura é repetido mais tarde. O que não muda muito dificuldade de muita gente que deseja vê-lo. A reprise costuma ser à 1h da manhã. Depois, pode acontecer de repetir mais vezes, mas não há como saber quando.

No ano de 2008, meu amigo índio véi Zahar, gravou e editou, colocando os trechos de minha participação no YouTube.

Desta vez mais recente, foi minha querida amiga Jade, que se deu a esse trabalho. Eu fui lá para falar do livro Vivências Fora do Corpo - a avenura de cada um, lançado recentemente pela Gnosis Editorial
(www.gnosis-ed.com.br), que escrevi com Elione Medeiros, Silvya Rawicz, Drauzio Milagres e Luiz Otávio Zahar, e organizei, livro este que traz o prefácio de Geraldo Medeiros Jr., do Instituto Medeiros de Pesquisas Avançadas (http://www.institutomedeiros.com.br/impa/publier4.0 )

Participaram comigo no programa, também como entrevistados, o médico Franklin Santana Santos — que estava divulgando um livro sobre experiências de quase morte e um evento sobre mente e corpo, que aconteceria um pouco mais tarde, em Sampa; o terapeuta de vidas passadas Milton Menezes; o jornalista Marcel Souto Maior, biógrafo de Chico Xavier, com uma nova edição de seu livro a respeito do médium, e o cineasta Wagner de Assis, diretor de 'Nosso Lar', que estava ainda a alguns dias do lançamento.

Mas aqui Jade reproduz não o programa inteiro, e sim os trechos de minha participação, conforme nos solicitaram muito os nossos amigos e leitores. De modo que aqueles que não puderam ver no dia, nem assistir a alguma reprise, podem agora dar uma conferida.

video 1 - Bem curtinho, é a parte em que Leda Nagle me apresenta



video 2 - Aqui eu falo sobre as experiências de quase-morte, como comentário a respeito das colocações do médico Franklin Santana Santos 



video 3 - Enfim, aqui eu falo mais sobre as experiências fora do corpo propriamente ditas e do livro Vivências Fora do Corpoa aventura de cada um.

Espero que vocês gostem.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Amo-te por nada, Amor Meu


Amo-te por nada, Amor Meu.

Por amar-te, simplesmente.
E amar-te é toda razão de que preciso,
toda explicação,
todo juízo.

Flor secreta do Dragão,
que ouves na noite
                             o meu chamado
o meu amor, teu medo
o teu amor, segredo
                             que procuras esquecer,
amo-te por nada.


E se te amo, Amor Meu,
e muito, e tanto,
basta amar-te intensamente
e esperar-te por enquanto.

Aguardar tua chegada,
o despertar, a cavalgada,
para longe do castelo
tão seguro
transformado, obscuro, em labirinto,
é pra sempre,
mas eu sinto, não é tempo a eternidade.
É intensidade.

Amo-te, Ah! Amo-te!
E por nada, Amor Meu.
Por amar-te, simplesmente.
Para despertar contigo
ser teu par, teu grande amor,
guardião, melhor amigo.

Mas teu medo do que queres
faz fugires do que amas,
e de volta ao teu castelo,
ficas só, e só te enganas.
Como flor que desespera,
e escolhe, imprudente,
retomar estrada antiga,
renegar o amor que sente.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Seja gentil, ou...


As reticências do título parecem uma ameaça, não é? Mas se eu explicar, possivelmente vai dar pra entender. A gentileza é, talvez, um dos maiores valores humanos, e a manifestação real de toda boa-vontade que podemos ter uns em relação aos outros. Talvez seja mesmo um valor espiritual. Vai além daquilo que se cumpre por obrigação, além do estritamente necessário. É um presente que damos de nós mesmos aos outros, inclusive àqueles que não conhecemos, ou que conhecemos muito pouco. Possivelmente em virtude disso mesmo, a gentileza é ave rara, coisa cada vez mais difícil de se encontrar. A gente pede, seja gentil, mas ninguém parece levar a sério. Tente achar um pouco de gentileza por aí. No Metrô, por exemplo.


Desagradável, às vezes, o Metrô, né não? A gente desembarca e vai pra escada rolante. Se estiver com pressa, babau! Aquele monte de gente, congestionando a tal escada mágica e supostamente rápida, não está nem aí pra sua pressa. Congelam em suas posições e azar o seu. E se você for subindo, tentando abrir caminho naquela massa auto-hipnotizada, corre o risco de acordá-los. E aí será olhado como um ser de outro planeta. E, pior, de um planeta inimigo! Como é que você não sabe que a escada dos apressados é aquela comum, que não se movimenta, que “não rola”? Escada rolante é pra gente ficar ali, paradão... E de preferência espalhado mesmo, barrando o caminho dos outros. Sem a gentileza de deixar espaço pra quem quiser subir por ela, caminhando. Quem mandou ter pressa?
O profeta Gentileza



“Tá com pressa, vai de táxi”, dizia-se, há algum tempo, a quem reclamava da lerdeza daquelas lacraias moto-mecânicas que o vulgo chama “ônibus”. Como praticamente não ando mais de buzum — ou é o Metrô mesmo, ou, paciência, táxi — não sei se a gracinha persevera na originalidade das piadinhas infelizes dos também infelizes e desiludidos passageiros. Mas o interessante da questão é o quanto o cidadão adora fazer pouco do próximo, mesmo quando sofre na carne o mesmo pouco caso e a mesma desconsideração que ele. Ou até por causa disto. Custava ser gentil?

Sim. Custava sim. Ser gentil não está mais entre as prioridades dos habitantes das grandes cidades. Nem mesmo nas do carioca — de nascimento ou adoção — que já foi considerado alegre, gentil e engraçado. Não é mais. Seja na escada rolante do Metrô (tá valendo também pra esteira rolante), seja no buzum, seja em qualquer aspecto da vida da cidade, é gentileza zero: o pouco caso e a grosseria são democráticos. Quer ver só?

Experimente observar aqueles artistas que ficam parados, no meio da rua, fingindo-se de estátua e atraindo o povaréu, que se encanta com aquela imobilidade aparentemente impossível para um ser vivo. As pessoas vão chegando, maravilhadas, e ficam ali, por longos momentos, embasbacadas com aquele fenômeno. Depois de satisfeitas, simplesmente vão-se embora, ignorando estrategicamente o recipiente (cumbuca, caixa ou chapéu) que está ali aos pés do artista, aguardando algumas moedas ou umas poucas notas.

Bem, depois de dar a sua contribuição (pelo menos você, seja gentil...) encaminhe-se à pracinha mais próxima, onde poderá ver, talvez, capoeiristas exibindo sua agilidade e beleza de movimentos, ou um artista tocando o seu instrumento e/ou cantando. Aqui no Rio, pelo menos há pouco tempo, não era incomum a gente ver também atores populares — no Largo da Carioca, por exemplo — com esquetes e tudo, dando um verdadeiro show de humor, e fazendo a gente — você, eu, o boy a caminho do banco, engravatados em geral, aposentados em trânsito, faxineiras, bacharéis, ciças e gabriéis — dar boas risadas e esquecer, por alguns instantes, os problemas tão insistentes, a maioria ainda sem resolução presumível.

Talvez você encontre esses admiráveis artistas também nas praças de sua cidade. Se encontrar, seja gentil. Aplauda e deixe a sua contribuição. Porque o mais provável é que a maioria das pessoas ali presentes, na maior má-fé, vai ignorar solenemente o fato de que, tanto o humano/estátua, quanto os capoeiristas, os atores, músicos e outros artistas, estão trabalhando, alegrando a gente, e que ninguém é obrigado a parar, para usufruir da arte alheia (que, pro artista, é trabalho!). E vão se mandar, concentradíssimos em suas vidas, em seu pouco dinheiro e em o quanto o mundo é injusto com eles. Bem-feito. Custava ser gentil?

É, custava mesmo. Se você passar depois pelo shopping mais próximo, poderá também experimentar aquelas pessoinhas sonolentas que trabalham em algumas das lojas, e que insistem em conceder à gente o dom da invisibilidade. E que quando nos vêem, aborrecem-se de ter de trabalhar. Uma dessas prebendas virou-se para uma de minhas maiores amigas — que, além de coroa, como eu, é de porte avantajado, gordinha — que procurava roupas bonitas para presentear uma magra e jovem sobrinha, e saiu-se com essa: “— Não temos nada para a senhora não...”. O que demonstra que a falta de gentileza pode andar de mãos dadas, namorandinho com a estupidez... E em geral anda...

Então, assim é a regra. Seja no Metrô (nos trens também tá valendo deixar de pé quem tem assento preferencial), seja junto aos artistas de rua, ou mesmo ao cidadão comum, que passa pela gente, ao cliente que entra na loja dos sonolentos, a gentileza não conta. Ser gentil significa atenção, conceder visibilidade ao outro, ter de pensar (talvez o maior de todos os obstáculos), sair da auto-hipnose, da robotização nossa de cada dia, significa ser gente de verdade. E se olharmos mais atentamente, veremos que gentileza é raridade também no ambiente de trabalho, nos serviços públicos, ou no meio da rua, no condomínio, na comunidade, em qualquer das esquinas da vida. “Gentileza gera gentileza”, já dizia o profeta de mesmo nome, que inspirou o Rio por tantos anos... Talvez não seja por acaso o fato de que, em geral — seja no estabelecimento comercial, na rua, ou mesmo na vida pessoal de quem não sabe ou não quer ser gentil — onde falta gentileza é exatamente onde sobram problemas. Ou, pelo menos, é aí que eles começam.

Gentileza? Como a escada reservada no Metrô aos apressados, gentileza “não rola”. Quem pode esperar boa-vontade alheia, quando não dedica um mínimo que seja de suas energias a ser gentil? Então, a gente continua pedindo, sugerindo, até implorando. Mas desta vez dá o troco e completa a frase do título: Seja gentil, ou... dane-se!
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domingo, 1 de novembro de 2009

Bom-dia, mulher




                          Bom-dia, mulher.
                          Resgato-te da noite
                          de nobres falidos,
                          jovens cegos de paixão
                          & facas traiçoeiras
                          dos portos de Hong-Kong.

                          Faço-te testemunha
                          da doce violência
                          de tua própria vida,
                          parindo mutantes
                          em meio a tardes mornas de seda
                          vinho & amargura.

                          Nada do que conheces
                          me ficará oculto um dia.

                         Limpo minhas armas,
                         satisfeito na familiaridade
                         da tua nudez,
                         adentro os templos
                         transformado em mulher
                         & vejo-te homem
                         pouco antes de transmutarmo-nos
                         em criatura sem nome, forma
                         ou história.

                         Soa, precisa e fatal,
                         a hora de encontrar-te,
                         agonizante e ressurrecta,
                         abandonando roupas putrefatas
                         nas estradas.

                         Vestes, é certo,
                         o uniforme da mais-valia
                         dada pela opressão que inventa
                         uma irônica liberdade
                         da qual padecemos.

                         Mas, clandestina,
                         dão-te nas sombras
                         a palavra de passe da insurreição,
                         a vocação de mulher armada
                         & combatente no Deserto,
                         tomando de assalto, um dia,
                         as fábricas & o Reino.

                        Vagas nos bosques,
                         em busca de uma cabana,
                         mantas de pele de urso
                         & véus negros & sabres perdidos
                         nas dobras do tempo
                         & de tua consciência.

                         Mas tua presença é bailarina,
                         recebendo-me sôfrega
                         nos salões de delícia do Inferno,
                         adormecendo cansada de um dia de opressão,
                         nuvem translúcida
                         curando leprosos nos hospitais da Índia.

                         Anseio ver-te cega na Estrada de Damasco.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mais três poemas

O Anjo e o Dragão - Trilogia





Canção Primeira - Na Noite Em Que Te Vi

De como o Dragão descobre o Anjo, e o que por ele há em seu coração.  Dividido entre a paixão e a fuga daquilo que sente, o Dragão perde-se na noite
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Na noite em que te vi,
toda a casa percorria mares
e, inquieta, a própria escuridão
sentiu fome daquilo que oculto
e roeu-me o peito
em busca do que não conhece.



Naquela noite, reneguei a poesia,
e caminhei trôpego por corredores
que me levam, cuidadosamente,
a lugar nenhum.


Procurei pelo milho e não o encontrei.
Vi claramente janelas abertas
para cegar-me;
mirei olhos de água pura,
senti entranhas onde quis amanhecer,
e que se fazem minhas,
para que eu jamais as possa possuir.


Na noite em que te vi,
quis gritar de dor pelo tesouro encontrado,
mas não consegui,
e uma pequena fada de asas negras
invadiu meu quarto
e afagou-me os cabelos para que eu dormisse.


Na noite em que te vi,
desejei fechar-me para a tua luz,
quis poupar de olhos inocentes
a visão inevitável do escândalo
e evitar minhas garras em tua pele luminosa.


Mas abriu-se sobre mim uma porta antiga,
e esticando em silêncio minhas asas,
sobrevoei perdido a cidade adormecida,
e procurei por ti, sem te encontrar.



Canção Segunda - Acordou-me Uma Canção Distante

De como o Anjo desaparece, em fuga do Dragão, e este é despertado por uma canção.  O vôo do Dragão em busca do Anjo, que o renega.  A prisão paralisante do Dragão. O redespertar e a busca. O Encontro.

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Acordou-me uma canção distante.
E me vi voando livre
sobre os campos largos do bom-senso e da sanidade.


Logo ultrapassei fronteiras.
E, perdido de tudo o que havia entendido,
cheguei a uma terra estranha
onde uma voz amada me cantava uma canção proscrita.

Eu não conhecia aquela voz,
mas meu coração sabia.
Era um anjo noturno, uma criança perdida
que pressentia meu vôo cego à sua procura.

Um poema que sempre amei.
Presente antigo, luminoso como a lua cheia.
Promessa do Espírito,
conhecida por meus dentes
e pela vocação do corpo.


Quando quis pousar,
uma sombra escura e fria a abraçou
e a levou de mim.
Alcancei junto à floresta o medo em forma luminosa,
irremediavelmente só e triste.
E ela me negou, e me fez perdê-la pela segunda vez.


Pousado sobre a catedral, silenciei.
E a memória de mil noites passadas
fez-me sabê-la em algum ponto da floresta
que eu não podia alcançar.


Renegado pela boca do anjo,
fiquei dele prisioneiro, e não pude me mover.


Foi numa noite imprevista
que novamente ouvi a canção.
Ela chegou a meus ouvidos ainda perdida,
como gritos,
e trouxe ao peito a opressão de um medo
que eu não conhecia.


Quando pude voar, dei com olhos de água pura
que miravam os meus.
Não como se perguntassem coisas,
nem como se quisessem entender meu vôo até ali.
Mas simplesmente entrando em mim
e devolvendo aquilo que me pertencia.


E então, como se conhecesse
cada um de meus gestos,
abriu minha promessa as suas próprias asas,
e fez-se maior do que eu a havia percebido.

A boca colou-se à minha, suavemente,
e prendeu-me a si,
confirmando a canção
que me havia despertado um dia.


Naquela noite amei-a intensamente.
E olhando a luz que nela me sorria,
conheci, enfim, a marca de meu vôo,
e cantei a canção que, antes, só ouvia.



Canção Derradeira - Em Pleno Vôo Um Frio Intenso


De como sutiliza-se o Anjo, sufoca-se o Dragão,  e ambos perdem-se um do outro, para sempre

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Em pleno vôo um frio intenso
acordou-me à noite de repente.


Senti morder-me o peito um eidolon furioso.
E a dor suave, mas profunda,
tinha o sabor inequívoco do beijo
que adormece sem consolo os enforcados.


Percebi à minha frente um anjo nu,
a pele luminosa despojada de encontros,
a alma aliviada na ausência de meu beijo,
o coração liberto do que ele acreditava
um sonho vão.


Vi então que lhe era amargo o meu presente.
Que, ao longo dos caminhos,
livrou-se o anjo aos poucos de uma historia,
e que as dores que eu sentia me invadirem lentamente
eram escamas deixadas ao acaso,
num caminho progressivo de silêncio e letargia.


Quando tentei tocá-lo,
tocaram o vazio as minhas garras.
E o coração do anjo era lugar nenhum,
onde habitavam distância, solidão e esquecimento.


Sufocado, gritei o nome desse anjo.
E ele, como que num gesto quase inexistente,
fez-me ver além de si,
como se ali não estivesse,
ou como se, lentamente, me perdesse.

sábado, 26 de setembro de 2009

Mais sobre a Orquídea Negra

Alguns amigos, que leram atentamente Apaixonado sim... Mas sem prometer nada, estranharam a minha conversa sobre a paixão. Intrigaram-se, sobretudo, com a idéia da paixão como uma overdose de drogas endógenas e, talvez mais ainda, o nome Orquídea Negra, com que batizei esse coquetel alucinógeno que nos tira do eixo, quando estamos apaixonados. Questionaram também, embora divertidamente, a minha idéia do encantamento como substituto mais saudável para a paixão.
Marquinho, zombou de mim, amigavelmente, Yara, uma querida amiga aqui do Rio, você continua apaixonado, e apenas inventou outro nome para a paixão.


Mas não. Não foi à toa que dei o nome de Orquídea Negra a esse complexo químico/anímico/amoroso, e até passei a dica do conceito, quando sugeri que ouvissem a canção de mesmo nome, de Zé Ramalho e Jorge Mautner, interpretada tão carismaticamente pelo primeiro. É só ouvir a música e tudo se explica.

O encantamento, eu não o inventei. Apenas o descobrí, confessadamente perplexo, por ocasião do assombramento referido em Apaixonado sim... Ele não tem esses ingredientes tão dramáticos, como bem sabe outra amiga, Luciene, de São Paulo, que usou do termo e do conceito, como algo melhor e acima da paixão, em uma troca filosófica de idéias, que teve início antes mesmo que eu criasse este blog.

Deixo a cada um a sua escolha, a sua opinião. Ouça, cético amigo, cética amiga, Orquídea Negra, que eu postei abaixo, e veja se à poderosa e suave força do encantamento poderia ser debitada tanta e tão bela dor...


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Três poemas



Embuçado

Surpreender minha dor de forasteiro,
foi tua marca admirável,
percebida nas noites em que Deus
brinca de não existir;
redescoberta nos minutos miseráveis
do meu absurdo.

Cada palavra, cada pensamento que me foge, vou buscá-lo em tí,
que dormes companheira de um menino amado,
feliz & proscrito.

E, na verdade, cada ilusão perdida e inútil
vai alimentar teu corpo magro
e dar brilho aos teus olhos.

Tu és aquela que repousa,
pronta & logo satisfeita,
livre do que não conhece.

E, quanto a mim,
sou aquele que te espera velado numa esquina noturna,
armado de serena paixão.


Amar-te é traição.


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Virei-me de repente e vi


Virei-me de repente e ví.
Da floresta saiu uma sombra,
da qual até agora só distingo
os olhos, o nariz e a boca.

Logo flutua em minha direção, e invade
o ar fresco da noite
com um aroma secreto de mandrágora e verbena.

Um anjo pelo avesso
que anuncia-me a mim mesmo,
dragão encarnado em homem,
ferido de morte pelo hálito de Hermanúbis.


Deixo-me levar por sua mão, que já percebo,
a reinos distantes, onde agoniza
a amada voz do Egito
e agita-se por dentro minha luz
e minha história.


Procuro no corpo uma adaga já perdida
e reajo desarmado,
beijando a bôca desse anjo,
que abandona-se ao contato
e cospe-me nos lábios palavras que não compreendo.


Dou-me todo, com temor, a essa sombra,
e viajo rápido,
rumo a espaços insondáveis,
onde ela me joga,
me mata,
e me pede socorro.

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Paixão


A paixão é uma alma errante,
Sorriso fácil e graves olhos;
Ascencionadas coxas

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Longa vida a Amy Winehouse!


Amy, em foto recente, ao sair de um julgamento
Acusada de agredir uma mulher, foi considerada inocente

Hoje é dia do aniversário de minha musa. A pequena daimon, Amy Winehouse, completa 26 anos de idade. A maior parte deles vivida de forma, no mínimo, transgressora e talentosa. Quem é amymaniac, como eu, fica muito contente em vê-la chegar até aqui, sobrevivendo à vida desregrada de auto-destruição que tem assumido nos últimos dois ou três anos. Vamos torcer pra ela se estabilizar mais, e finalmente lançar o seu terceiro álbum, que ficou meio a reboque de seu estilo de vida. Ela chegou a gravar um, inteirinho, durante suas prolongadas férias na Ilha de Santa Lucia, no Caribe. Mas a gravadora não aprovou. Amy abandonou suas levadas anteriores, e fez um disco todo à base do ska. Com um agravante (ao menos para os executivos da gravadora): as letras eram excessivamente depressivas. As últimas notícias dão conta de uma Amy trabalhando em outra proposta de CD.


Cantora profissional desde a adolescência, Amy é classificada pela crítica especializada como uma intérprete jazz/blues/soul. Atualmente tem cantado pouco jazz (cantou muito até 2004), e se dedicado mais a uma fase soul. Mas é um soul propositalmente datado, e que, de uma maneira geral, ainda é o mesmo jazz, mas disfarçado em outro andamento, e alguns poucos detalhes dos arranjos. Além disto, é um soul que tem mais a ver com aquele dos anos 1960, bem Motown mesmo, do que com o soul vestigial que se faz hoje. E é exatamente o clima neste Back to Black, que foi o carro-chefe e o título do segundo álbum da artista, e que a projetou mundialmente. Mesmo quem já conhece, talvez não tenha prestado atenção a certos detalhes importantes, sobretudo à melodia muito inspirada — abordagem tipicamente britânica da artista, que desamericanizou o soul — com um clima agressivo, mas triste, a harmonia lírica e pungente e o arranjo simplesmente soberbo, com uma levada Motown devidamente repaginada.


 O vídeo você pode ver aqui:


Ele mostra um funeral, com Amy atuando como a viúva. Na verdade é uma alegoria de separação, como fica bem claro na letra, em que ela fala de um namorado que voltou para a parceira anterior. Uma lógica bastante parecida com a de algumas brasileirinhas, que se referem a ex-namorados ou ex-maridos como o falecido. No vídeo há uma palavra que foi omitida, certamente por questões de censura. Em He left no time to regret / Kept his dick wet, a palavra dick simplesmente não é articulada pela diva, no som em si, embora apareça claramente nos movimentos da boca da cantora.  Atenção pra viradinha da guitarra old fashioned, discreta, mas expressiva, ainda no início da música; mais precisamente logo depois de My odds are stacked / I'll go back to black e introduzindo a frase We only said goodbye with words. O andamento  melancólico realça e valoriza imensamente a beleza da melodia, a voz de Amy e os arranjos primorosos.

Valeu, Amy! Estamos aguardando mais. Parabéns! Longa vida a Amy Winehouse!